Depois de tanto tempo, volto para vocês com um novo conto. Este, por sua vez, veio um dia desses durante um de meus delírios matutinos, enquanto voltava para casa do trabalho. Ao terminarem de ler, provavelmente vão querer saber no que estava pensando quando concebi este conto, mas é óbvio que, assim como um mágico não revela seus truques, eu não irei citar como cheguei neste. Por hora, tudo o que tenho a dizer é que este é um dos trabalhos mais distintos que imaginei, chegando ao ponto de ser algo completamente novo do início ao fim.
Enfim, que comece o conto:
Enfim, que comece o conto:
Meu nome é Roberta e tenho 25 anos. Geralmente, eu sigo uma longa distância a pé antes de chegar ao ponto de ônibus quando saio de casa. Hoje é um típico dia de quinta. Típico no sentido de que me faz lamentar tristonha por amanhã ainda não ser o fim de semana. Os carros passavam zombando a minha esquerda, como se dissessem "eu tenho carro e chego ao trabalho em 10 minutos". Como eu odeio isso; um dia ainda terei carro e zombarei dos pedestres. Minha distração foi tamanha que nem reparei por onde andava e, inesperadamente, uma poça enorme de água suja voou do asfalto e atingiu meu vestido.
- Desgraçado! - gritei eufórica, pulando em direção a rua. - Olha pra onde anda!
Um som de buzina berrou atrás de mim e pulei para o lado. Meu coração foi a mil, nem sei como consegui ficar de pé. O motorista do gol branco saiu eufórico, gritando escárnios para que eu saísse da pista. Mal toquei a calçada, e outro acidente ocorreu - esbarrei em alguém e ambos fomos ao chão.
- Você está bem? - perguntou o homem, rapidamente se levantando e me ajudando a me por de pé.
- Ai, minha cabeça - foi o que exclamei baixo, mas tomando o cuidado para que o estranho me escutasse e, desse modo, ele soubesse que o culpado fora ele mesmo.
Quando ele tocou minha mão para me erguer, senti uma onda quente em minha pele. Sua mão era macia, mas fora levemente firme enquanto me segurava. Pisquei antes de continuar e me deparei com seu busto. Era daquele tipo grande de homem que frequenta academia com frequência, um tipo detestável de homem na realidade, embora a camiseta azul-bebê tenha lhe caído justamente bem. Quando vi seu rosto, quase caí para trás novamente. Ele era exageradamente bonito, de olhos azul-claros radiantes sobre um queixo bem barbeado. Seu cabelo era um loiro quase castanho, liso e muito bem comportado, embora fosse quase curtinho. Quando eu disse "estou bem", ele abriu um sorriso de olhos fechados que me arrepiou completamente.
- Ai, que bom, porque eu ficaria roxa-uva se você tivesse se machucado.
Meus olhos esbugalharam e fiquei em choque. Por um instante, quis sair correndo.
- Ai, que nojo - exclamou o grandalhão, fitando-me de cima à baixo. Eu quis vomitar nessa hora. - O que lhe aconteceu, menina? Você está imu-unda!
- Não, não, esquece isso - disse, afobada, tentando não deixá-lo me tocar.
- Esquecer como? Olhe para você! Vem rápido, vou lhe levar lá pra casa pra tomar um banho URGENTE!
Estava sendo seqüestrada! O homem (ou não) tinha me segurado pelo braço e me arrastava pela rua. Embora eu tentasse resistir, era inútil, pois ele deveria ter de braço o que eu tenho de cintura. Alguns segundos depois, ele me soltou e começou a abrir um portão. Arregalei os olhos novamente, dessa vez em um suspiro mudo. Não só aquele era O portão, como por trás dele havia A casa. Mesmo continuando a ser arrastada, dessa vez para dentro, o quadro mudou - queria muito conhecer aquele lugar. Era uma casa de três andares, toda verde-claro, com uma garagem aberta para uns cinco carros à esquerda (sendo que tinham dois estacionados), árvores diversas em um jardim à direita, e um caminho de pedras sobre o capim aparado até a porta da frente. Fiquei completamente hipnotizada, sem reação mesmo! O homem abriu a porta e de novo me puxou para dentro, novamente fiquei estática. Eu estava parada de frente a um corredor que possuía uma declinação (um buraco no chão) à direita onde se encontravam móveis típicos de uma sala de estar. Típicos, na realidade, de salas de estar das novelas das oito. Uma prateleira de mármore dividia o que me parecia.... nossa, ele tem uma sala de jantar?! O braço musculoso me puxou novamente, dessa vez atravessando o corredor e me levando ao andar de cima. Meu primeiro impulso era o de fechar os olhos, assim não seria pega pela ilusão desértica que me levava ao oásis. Escutei uma porta se abrindo e me deparei com um quarto. A mobília presente e a maneira de organização me levaram a crer que eu não estava em um quarto de hóspedes. Havia equipamentos de aeróbica e à esquerda, uma cama de tamanho entre uma tradicional de solteiro e a tradicional de casal; ela estava arrumada, mas estava óbvio que alguém tinha se levantado dela há pouco tempo. Havia uma única porta no aposento, e foi para lá que o grandalhão me levou.
- Aqui, use essa toalha - disse ele antes de fechar a porta.
Fiquei estagnada, perplexa e tremendamente admirada. Havia um armário de cômoda simples, com uma pia na parte de cima e um espelho grande o suficiente para me ver desde a cintura. Despi-me, sem saber onde colocar minhas roupas, pois o "cabide" era pequeno e já estava sendo ocupado. Coloquei-as cuidadosamente sobre o vaso sanitário, minhas bijuterias tintilando sobre o mármore. A minha esquerda, estava uma porta de correr de vidro semitransparente, arrastei-a e adentrei. O chuveiro não era tão alto como imaginei que fosse, pelo fado de o dono ser alto, mas quando olhei para o mecanismo que libera a água, fiquei admirada. Ele era muito parecido com uma maçaneta de carro, onde nós puxamos aquela coisinha para que a porta abra. Tentei esse movimento e a água espirrou forte. Desesperada e me afogando, tentei empurrá-la de volta, mas acabei girando-a para o sentido horário sem querer e a água esquentou a ponto de queimar. Empurrei-a em fim com um golpe e a água cessou. Minha respiração foi a mil, coloquei minha mão na parede e respirei fundo. Dessa vez, tentei com calma, centímetro por centímetro, grau por grau, até encontrar uma posição que me agradasse. Depois de um tempo, procurei pelo sabonete, e o encontrei a minha esquerda, mas fiquei preocupada em usá-lo ou não. Resolvi por não usar, não só era mais higiênico como mais respeitoso. Ao sair do box, vi a falha no plano do homem. No que adiantaria tomar banho se minhas roupas continuavam imundas?
Sai de toalha, completamente nervosa, tentando fixar o pensamento de que o homem, mesmo assumindo que fosse pervertido, não iria pensar besteira de e sobre mim.
- Olha - comecei, mas fui interrompida.
- Cadê as suas roupas? - perguntou ele, aproximando-se. - Preciso delas para por na máquina de lavar. Tome, vista estas aqui - disse-me ele, me dando uma calça jeans e uma blusa branca.
Por um instante, quis dizer que não iria adiantar, pois as roupas que ele usa não iriam caber em mim nunca. Mas então, ao voltar ao banheiro e conferir o que ele tinha me dado, o quadro mudou. Era verdade que ficaram ligeiramente frouxas, mas eram o meu número e tamanho, por pouco não ficaram justinhas. Olhando-me no espelho, tentei imaginar o dono delas vestindo-as. Impossível foi a conclusão que cheguei. No mínimo, ele não entrava neste manequim há anos. Será que pertencia a um amante? Talvez ao namorado dele?
Juntei minhas roupas sujas em um bolo nas mãos e voltei ao quarto.
- Nossa, ficou divino - exclamou ele, me analisando de cima à baixo. - Quando Mário escolhe uma roupa, Mário arrasa!
- Quem é Mário? - indaguei, tentando não parecer intrometida quanto a quem ele escolhe como parceiro.
- Ai, meu Deus - clamou ele, eufórico. - Como eu não me apresentei? Ai que vexame!
- Você é o Mário, então? – disse, nem um pouco surpresa.
- Sim, minha linda. Mário a disposição - prometeu-me ele, estendendo a mão em um comprimento.
- Bom - comecei, apertando-lhe a mão e esfregando minhas costas com a outra - meu nome é Roberta.
- Prazer em lhe conhecer, Roberta!
Então, em um movimento gracioso, embora bem másculo devo admitir, mesmo tendo minha mente completamente bloqueada para isso no momento, ele se retirou com minhas roupas sujas na mão. Girei no lugar, tentando imaginar como proceder agora. Por fim, sentei-me na beira da cama, esperando. Ele não voltou logo, por isso acabei ficando entediada de analisar sem qualquer proeza seus equipamentos de ginástica. Por fim, encontrei o controle da TV ao lado da mesma, e fiquei em um impasse. Contudo, ignorando meus espasmos, lembrei-me que foi o grandalhão quem me trouxe a força pra cá, ele que não se atrevesse a me brigar por ligar a televisão.
Alguns minutos depois, ele chegou ao quarto. Eu estava esparramada em sua cama, completamente confortável entre seus travesseiros que eu usava como puffs. Ele me olhou sem um pingo de reprovação, e se atirou a cama também. Nenhum dos dois falou nada, apenas admiramos o canal informativo. De vez em quando, de tempos em tempos, fiquei dando espiadinhas inocentes em sua direção. Ele, no entanto, com um sexto sentido apurado, sempre alargava um sorriso quando eu o fazia. Já incomodada, levantei-me em um salto.
- Ai - exclamei, jogando a mão ao ombro.
- O que houve? - questionou Mário, pulando na cama de preocupação.
- No salto, eu acho que acabei deslocando algo no pescoço. Ai, ai, ai, está doendo muito!
- Ai, menina! Isso pode ser perigosíssimo! - comentou ele, deslizando sobre a cama e se sentando atrás de mim. Sem perguntar ou argumentar, ele começou a massagear minha clavícula, fazendo movimentos revitalizantes.
Engoli um suspiro, pois seus dedos eram mágicos. A sensação era deveras prazerosa. Alguns segundos depois, ele se ajeitou no lugar, para poder me atender melhor. Nisso, ele encostou suas pernas nas minhas. Ai, senti um calafrio por todo o meu corpo! Aquelas pernas...!
Ele então começou a mexer meu pescoço fazendo movimentos circulares com ele. Não sei como, mas senti seu busto tocando minhas costas. Outro arrepio. Mordi os lábios e fechei os olhos, sem poder me controlar. Ele continuou me massageando, sempre muito delicado, sempre muito perfeito. Depois que meu pescoço estalou baixo, ele continuou me tratando. A essa altura, eu já estava tendo espasmos internos.
- Pronto - anunciou ele quando terminou, dando uma tampinha nos meus ombros.
Abri os olhos e tive uma surpresa. Com um sorriso de olhos fechados nem um pouco inocente, ele me fitava de um espelho em cima da cômoda à frente. Sem reação, me recolhi ali mesmo.
- No que você estava pensando? - indagou ele, deixando seus braços caírem gentilmente sobre minhas pernas e acomodando sua cabeça sobre meu ombro.
Continuei gélida, presa naquele abraço forçado. Meu instinto me mandava sair correndo, minha consciência me mandando correr, meu raciocínio me exigindo que corresse, mas meu corpo estuporou-se, meu coração bumbava em meu peito e meus membros tremiam.
- Era nisso que pensava? - objetivou ele, dando-me um beijo tímido no ombro. Aos poucos, ele foi dando outros, fazendo um caminho rumo ao meu pescoço. Conforme ele os fazia, eu me enrijecia ainda mais e ficava cada vez mais ereta. Ele então pousou suas mãos sobre as minhas, me recolhendo para seu tronco lentamente, e quando percebi ele já friccionava com carinho suas pernas nas minhas. Eu estava completamente presa, presa em uma jaula que não queria mais sair. Seus beijos chegaram a minha orelha, e o arrepio me fazia delirar ali mesmo. Seus braços deslizavam sobre minha cintura, querendo timidamente subir pra meus seios. Quando meu consciente tomou conhecimento do que ia acontecer, rapidamente tomou uma providência:
- Ai meu Deus, tenho que ir pro trabalho! - exclamei, libertando-me e ficando em pé e de costas a ele.
- Para o trabalho? - interrogou Mário, sem sair da cama.
- É, para o trabalho. - Espiei o relógio. – Caramba, já são quase nove horas! Meu chefe vai me matar! E-e-eu tenho que voar pro escritório!
Saí ligeira em direção à porta, porém fui impedida quando toquei na maçaneta.
- Tem certeza disso? - indagou ele, segurando-me forte. - Prefere mesmo ir ao trabalho, não quer ficar aqui comigo?
- Ficar? - questionei, perplexa. Perplexa pela resposta que me veio à mente. – Não posso, eu tenho que ir! – exclamei baixo, me inclinando para a porta.
- Tem certeza que prefere o trabalho - começou ele, dando uma pausa curta – ou prefere isso?
Ele me virou com proeza e, antes de sequer cogitar, recebi um beijo. Minha visão embaçou e meu coração vibrou ligeiro. Era como se o arrepio fosse um choque elétrico. Porém, não me machucava nem um pouco. E se aquilo era um sonho, não queria acordar por nada...
* * * * *
Meu nome é Mário e estou cansado, pois havia acordado ainda mais cedo do que os dias anteriores. Ultimamente tenho acordando muito cedo, e as noites tenho tido insônia. Meu médico me receitou uma medicação que estava funcionando, mas agora acordava nas madrugadas a intervalos de uma hora. Quando amanhece, fico sem vontade de voltar para a cama.
No trabalho, por outro lado, não tinha horário para entrar ou sair. Aceitar uma oportunidade de emprego com banco de horas tinha sido a melhor escolha que fiz na vida. Agora, por exemplo, podia ir à padaria da esquina sem me preocupar com o horário que, por sinal, ainda estava clareando. Porém, amanhã seria um dia corrido, tinha que entregar o esqueleto do projeto antes do meio-dia, quando a filial mandaria seu representante.
Eu estava distraído, olhando para o céu. Uma nuvem assumira curiosamente a forma de uma garça. Alarguei o sorriso ao ver que, estranhamente, havia um peixe na ponta de seu bico. Campeei por outras formas diferentes, mas um baque estrondoso seguido de um cantar de pneus roubou minha atenção. Olhei em volta e vi o motorista do gol branco sair com a mão na cabeça. Levei a mão à boca, perplexo. Uma garota estava jogada no chão, torta, sangue brotando de debaixo dela.
- NÃO! - berrei ao ver que o motorista queria tocar nela. - Ela pode ter quebrado alguma costela - alertei imediatamente, aproximando-me para conferir se ela ainda respirava. Seu coração ainda batia e vi uma esperança de vida em seus olhos, que fitavam fundo os meus. - Alguém ligue para a emergência! - exclamei, pressentindo o pior. Voltei a fitar seus olhos, minha mão em seu peito não estava mais sentindo pulsação. Aproximei meus ouvidos de seu nariz, e não estava mais sentindo o ar sair. Desesperei, sem ação. Olhei de um lado para o outro, puxei o celular de alguém e comecei a falar com a atendente, identifiquei-me e disse pontos de referência e o estado da garota. A atendente me disse para não tocar nela, mas era óbvio que não iria dar tempo. Minha mão ficou estagnada, querendo bater forte no coração dela para ver se ele funcionava no tranco. Resolvi agir, fazendo respiração boca-a-boca.
Algum tempo depois, a ambulância chegou. Mas já era tarde.
Bom, aqui foi mais um conto. Enquanto o escrevia, tentava arduamente procurar sinônimos neste blog Das Fultil mas era raro eu encontrar alguma que fosse legal o suficiente, ou então era algo que nunca tinha escutado na vida. Foi por isso que demorei a publicar este conto. Isso e o fato de eu revisar várias vezes para que as palavras estivessem devidamente no feminino, já que é a primeira vez que faço um conto pelo ponto de vista de uma mulher. E, ainda, tendo um protagonista de personalidade duvidosa (risos).
Uma coisa que mais me encantou enquanto dissertava, era que não esperava pelo rumo que o conto foi indo. Eu realmente não cogitava o desfecho, acreditem em mim por favor (risos2). A priori, espero que não tenha saído exagerado. E gostaria de ver as teorias para a mudança repentina da personalidade de Mário (piscadela).
Atenciosamente,
Wodash.
Um comentário:
Seu pervertido.
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