Depois de tanto tempo sem postar alguma coisa, és que me surge alguma inspiração, embora ainda seja apenas uma espécie de review para mim, pois essa continuação já estava em meus devaneios logo quando postei o original (que você pode encontrar pelo índice, ou clicando aqui).
Estou na calçada, sentado. Embora minha mão à cabeça estivesse quente por causa do líquido que ainda escorria para meu rosto, não havia uma única ponta de energia em mim. Sentia-me imensamente estagnado, sem vida. Olhava apenas para aquela poça vermelha no chão, e os olhos da garota ainda não saíram de minha visão. O SAMU já tinha a levado há tempos, mas minha imaginação se encarregara de imortalizá-la ali, no chão.
- Ei - chamou alguém, provavelmente o motorista do táxi. Mas não podia ser ele, pois tinha ido junto à ambulância. A pessoa entrou em meu foco de visão e, para meu espanto, aqueles olhos castanhos eram iguais a da garota. - Mário, você está bem?
- Sim, sim - respondi, quando vi que era apenas Simone, minha vizinha.
- Então vamos, vou te fazer um chá - prometeu-me ela, ajudando-me a me levantar.
Estávamos indo para a casa dela, conseguia identificar isso conscientemente, mas meu inconsciente continuava naquela calçada. Não havia qualquer explicação para o que eu estava sentindo, a não ser o choque. Já havia testemunhado muitos acidentes antes, alguns poucos piores, mas nenhum tão próximo e tão há tempo como esse.
Sim, provavelmente fora o choque.
Simone abriu o portão de sua residência, e a segui sem pestanejar, sem reparar no gramado recém-capinado ou nas flores que haviam florido da noite anterior. Também nem notei que ela havia mudado o local do sofá na sala, ou que a cozinha estava mais mobiliada do que a última vez em que estive ali, ou que o cheiro floral era novidade.
Balancei a cabeça, tentando me recuperar, e sorri para Simone quando ela me fitou do outro lado da mesa em que sentávamos agora.
- Então, pode ser chá preto? - indagou ela, se levando de um modo que me fez perceber que ela não estava mais tão preocupada comigo.
- Não, não, esquece isso. Tem água geladinha, geladinha?
- Acho que geladinha, geladinha tem não - retrucou ela, me imitando. - Mas acho que deve ter gelo aqui no congelador, vou por uns pra você - comentou enquanto separava a água no copo.
- Pode ser, obrigado.
- Então, você viu tudo? - objetivou ela, interessada. Por um momento, fiquei lhe fitando tirar o gelo da forma, sem prática. Depois percebi que ela realmente não estava na hora do acidente.
- Não sei exatamente, só vi o corpo-
- Mas a Fernanda disse que você testemunhou tudo! - exclamou ela, fazendo bico.
- Sim, quer dizer, não exatamente - disse, pegando o copo. - Tipo, eu estava virado para o outro lado na hora. Só escutei um baque alto e, quando me virei, vi que tinha sido do meu lado. Tudo o que testemunhei foi ela já atirada no chão e o motorista correndo pra socorrer. Depois impedi ele de tocar nela e liguei pro 192. Só isso!
- Entendo - disse-me ela, olhando pra o vazio. - Eu, por outro lado, tava lavando roupa lá atrás, quando ouvi os comentários da Fernanda. Eu tentei largar tudo, mas ainda estava pondo o amaciante na máquina, e ainda tive que fechar a casa, então acabei perdendo tudo.
- Sei. Mas não era uma vista agradável de se presenciar. Então não se preocupe com isso.
- Ok. Você a conhecia? - questionou ela, me fitando fundo.
- Nem! - neguei, balançando a cabeça. - Nunca a vi por aqui.
- A Fernanda me falou que ela mora lá na parte de cima, não muito longe.
- Hum - exclamei, ouvindo. Não sei por que, mas estava sentindo um certo incômodo em falar a respeito do acidente. Não conhecia a garota, não havia motivo para estar incomodado. - Mudando de assunto, como foi a entrevista?
- Ah, péssima. A pretensão salarial era muito baixa. Não dava!
- Nossa, pensei que fosse quase o dobro de quanto você recebia antes!
- Nem! Mesmo sendo maior, a função iria exigir muito... não valia a pena. Afinal, não tou necessitada. Já recebi a primeira parcela do seguro, vou consegui sobreviver até achar um emprego melhor.
- Você quem sabe!
Houve um momento meio constrangedor, onde Simone ficou olhando para o lado de fora e eu fiquei tomando a água. Então, anunciei que ainda tinha que ir ao trabalho, pois no dia seguinte iria ter uma reunião importante com um representante comercial que viria de São Paulo.
Sem fome, deixei a padaria de lado e fui pra casa. Meu quarto estava mais gelado do que me lembrava, uma vez que não tinha ligado o ar-condicionado por ter sido uma noite fria. Fui ao guarda-roupas e escolhi as roupas do dia e, ao fechar, meu coração parou no susto.
Uma mancha vermelha em forma de mão estava gravada na porta.
Fitei os lados, em busca de alguém, mas o quarto estava vazio. Andei de costas, em direção ao banheiro, mas estava vazio também. Ao olhar pelo espelho do banheiro, a imagem da garota estava olhando para mim.
Não, era a minha imaginação. Aquele era o meu rosto, não o dela. E o sangue em meu rosto era minha imaginação. Não, era o sangue da garota. Sim, era isso.
- Caramba, que susto! - exclamei, me recompondo. Pelo visto, aquele seria um dia difícil.
Fui direto para o chuveiro, tomar uma ducha de água fria bem prolongada. Precisaria acalmar os nervos. O chá de Simone viria bem a calhar agora. Apalpei meu peito, tentando inutilmente forçar sua desaceleração. Não consegui logo de imediato, tive que pensar em inúmeras outras coisas, como o trabalho que teria para organizar toda a planilha de preços para amanhã. Ao terminar, puxei a toalha para me secar.
Havia uma fragrância diferente no ar. Um cheiro doce e suave, porém estava muito ralo. Por um instante o perdi, mas o encontrei novamente em minha toalha. Era fraco, muito fraco, mas estava ali. Que perfume seria aquele?
Voltei ao quarto tentando imaginar de onde ele teria vindo. Nada. Desisti e me troquei.
Escolhi por ir na Pajero, pois um medo se instaurou por mim e um senso de proteção se alastrou pelos meus músculos. Enquanto dirigia, tive a impressão que o tempo não estava passando. Não havia muito trânsito a essa hora, por isso o caminho tava correndo livre. Porém, toda vez que via um gol vermelho passando do meu lado, as imagens vinham por si só. Por um instante, enquanto o semáforo mandava parar, fechei os olhos e tentei me concentrar. Aquele seria um dia estressante, mas não precisava começar na ida ao trabalho. Liguei o toca-cd e a começou a sinfonia. Não sabia por que, mas isso sempre me relaxava muito.
O expediente começou normal, era correria para todo lado. O officeboy tinha entregue os papeis errado, o orçamento do mês tinha se esgotado e a audiência seria hoje. Fiquei estupefato, não saberia como proceder. As pessoas diziam que não sabiam como eu tinha esquecido. Foi direto para a sala de reuniões, e improvisei como pude. Felizmente, o produto era algo do meu dia-a-dia, então sabia muito bem como vendê-lo. Ao terminar, dei várias instruções ao estagiário e voltei pra casa.
Estava estranho, muito estranho. Mas tudo bem.
Tranquei-me no quarto, ligando o ar e depois a TV, pondo o primeiro filme que estava na pilha de pendentes. O sono chegou rápido, graças ao conforto de minha cama. Haviam várias preocupações na minha mente, mas a mais insistente era a garota. Ela me visitou várias vezes, sempre com um sorriso de orelha a orelha. Porém, em um sonho interminável, ela estava bem jovem. Eu também.
Tínhamos 10 anos. Estávamos na quarta série. Era hora do recreio. Comentávamos sobre a vida, de como seríamos quando crescêssemos e nos comprometemos um ao outro. Porém, no sonho, o tempo passou e nos vimos cada vez mais distantes, até que na sétima série não estávamos mais na mesma sala e deixamos de nos falar. No ensino médio, fomos para escolas diferentes. Uma vez, recebi um e-mail dela, quando estávamos concluindo terceiro ano. Era para que a turma se reunisse, mas não fui, estava ocupado fazendo uma entrevista para intercâmbio. Os dias foram passando, vi várias oportunidades de emprego, regressei ao Brasil para a casa de meus pais. Com o tempo, eles faleceram e eu reformei tudo. Fui perdendo as afinidades, as amizades, a vida. Até que em um belo dia, um baque surdo me chamou de volta. E o rosto era...
- Roberta? - exclamei, me levantando da cama em um susto.
Acho que ficou bom para um retorno. Essa é a primeira parte, espero estar a terminando ao longo da semana. Infelizmente, acabei me apegando ao blog novamente perto do início do ano letivo. Mas vou sempre dedicar um tempinho pra ele agora. Espero que tenham gostado.
Atenciosamente,
Wodash.
O expediente começou normal, era correria para todo lado. O officeboy tinha entregue os papeis errado, o orçamento do mês tinha se esgotado e a audiência seria hoje. Fiquei estupefato, não saberia como proceder. As pessoas diziam que não sabiam como eu tinha esquecido. Foi direto para a sala de reuniões, e improvisei como pude. Felizmente, o produto era algo do meu dia-a-dia, então sabia muito bem como vendê-lo. Ao terminar, dei várias instruções ao estagiário e voltei pra casa.
Estava estranho, muito estranho. Mas tudo bem.
Tranquei-me no quarto, ligando o ar e depois a TV, pondo o primeiro filme que estava na pilha de pendentes. O sono chegou rápido, graças ao conforto de minha cama. Haviam várias preocupações na minha mente, mas a mais insistente era a garota. Ela me visitou várias vezes, sempre com um sorriso de orelha a orelha. Porém, em um sonho interminável, ela estava bem jovem. Eu também.
Tínhamos 10 anos. Estávamos na quarta série. Era hora do recreio. Comentávamos sobre a vida, de como seríamos quando crescêssemos e nos comprometemos um ao outro. Porém, no sonho, o tempo passou e nos vimos cada vez mais distantes, até que na sétima série não estávamos mais na mesma sala e deixamos de nos falar. No ensino médio, fomos para escolas diferentes. Uma vez, recebi um e-mail dela, quando estávamos concluindo terceiro ano. Era para que a turma se reunisse, mas não fui, estava ocupado fazendo uma entrevista para intercâmbio. Os dias foram passando, vi várias oportunidades de emprego, regressei ao Brasil para a casa de meus pais. Com o tempo, eles faleceram e eu reformei tudo. Fui perdendo as afinidades, as amizades, a vida. Até que em um belo dia, um baque surdo me chamou de volta. E o rosto era...
- Roberta? - exclamei, me levantando da cama em um susto.
Acho que ficou bom para um retorno. Essa é a primeira parte, espero estar a terminando ao longo da semana. Infelizmente, acabei me apegando ao blog novamente perto do início do ano letivo. Mas vou sempre dedicar um tempinho pra ele agora. Espero que tenham gostado.
Atenciosamente,
Wodash.
